Transbicigótica

de 30jul06 a 15ago06

17 etapas

1200 km

Apoio logístico (e sentimental): Brígida e Bé.

Os Bicigodos que participaram nesta aventura: Hélder, Ricardo e Jerónimo.

 

Prefácio

Dia 1

Dia 2

Dia 3

Dia 4

Dia 5

Dia 6

Dia 7

Dia 8

Dia 9

Dia 10

Dia 11

Dia 12

Dia 13

Dia 14

Dia 15

Dia 16

Dia 17

Dia 17 - Sem comentários

"Estamos aqui, a subir o trilho!"

Dia 16

 

Claro que do pão se fazem tostas

Claro que o "jetset" é chique

Os bicigodos estão a acabar com "uma perna às costas"

Ó p'ra eles já em Monchique

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao penúltimo dia, e com apenas cinquenta quilómetros pela frente, pensávamos que a transbicigótica estava no papo. Mas em Monchique temos uma serra, a Serra de Monchique. Nós rasgámo-la.

Durante todo o dia, por mais que se retroceda na etapa, não nos lembrámos de ter descido, tal foi a dificuldade das subidas de toda aquela serra do tamanho do céu. Sempre bem lá em cima e com o céu tão perto, nunca lhe conseguimos tocar, e bem que tentámos. Recolhemos alguma fruta - que foi o nosso sustento durante este dia - em árvores perdidas junto a caminhos intransitáveis, já que a leveza do corpo foi essencial na transposição da pior serra, a nível de btt, que nos surgiu nesta transbicigótica.

 

 

"Estamos em Monchique"À hora que vos descrevo este penúltimo dia, tudo isto já foi ultrapassado e todas estas dificuldades vieram só, e apenas só, valorizar esta aventura tresloucada. Esta será a última crónica deste evento. Como em todos os grandes acontecimentos, há sempre o dia da consagração e, para estes três amigos, esse dia é já amanhã, o dia 17. Estamos contentes por termos chegado aqui. Desde o início, estávamos confiantes de que esta aventura estava ao nosso alcance. Hoje temos a certeza. Não foi fácil, mas, como tudo na vida, aquilo que fazemos com sacrifício e com um esforço suplementar, no fim, sabe sempre muito melhor. Foi com agrado que partilhámos com todos vocês estes dezassete dias que ficarão na nossa memória, para sempre.

Esta foi a primeira grande aventura em btt idealizada e concretizada por estes três amigos. Eventualmente, no futuro, poderão surgir outras, o que custa é começar. Nós já começamos. Obrigado a todos os que nos acompanharam e "torceram" por nós (a energia amiga). Obrigado às forças da Natureza que toleraram a nossa passagem ao longo do país. Obrigado aos que nos abriram as portas, as suas herdades. Obrigado às nossas meninas que logisticamente se saíram bem. Obrigado a todos aqueles que não nos lembramos de mencionar. Estejam atentos, muito atentos. Nós voltaremos! Um abraço e bem-hajam!

Texto: Jerónimo

Dia 15

 

Já estou muito perto do fim

Com vontade abalei numa boa

Sinto cada vez mais Santa Clara perto de mim

Se gritar bem alto "Bicigodos!", em Sagres já entoa

 

Quando uma barragem de comportas abertas deixa a sua água fluir pelo rio abaixo, quem as abre, nunca pensa que poderia estar a  interferir numa travessia de Portugal em BTT. Ontem, foi isso que aconteceu e os 25 km feitos, a mais, nesta Transbicigótica deixaram estes 3 amigos um pouco desorientados e desgastados. Ao 14.º dia tudo o que vem a mais é demais. Mas estando este projecto estruturalmente bem conseguido, o 15.º dia veio na melhor altura, fazendo com que, ao longo de mais de 80 km, fossem havendo pontos estratégicos de refrigeração destas máquinas incansáveis e imparáveis. Foram surgindo no caminho a barragem do Monte da Rocha, o rio Sado, barragem de Corte Brique e finalmente a barragem de Santa Clara. Todos estes pontos de água não apareceram por acaso. Vieram escoltar esta Transbicigótica, diminuindo o transtorno sentido no dia anterior. Cada uma na sua vez, ofereceram-nos as suas águas e uma ponte, caso nós quiséssemos passar para a outra margem. Ainda mais, ajudaram-nos a sair do fim do mundo, alterando-nos completamente a paisagem. Nos primeiros km’s, estando as barragens ainda em conversações, não notámos qualquer diferença. Mas depois o cenário desta Transbicigótica alterou-se.

Voltaram as descidas e as suas belas subidas, voltou a sombra, voltaram as casas, embora salpicadas, aqui e ali notámos que já não estávamos tão sozinhos, voltaram as conversas de café, o interesse por estes 3 amigos e o falatório nacional que já envolve este evento.

Com um apetite devorador para comer km’s, nesta etapa, a nossa vontade era ir directamente para Sagres, mas isso causaria problemas ao nosso país que já é pequeno. Mas se, de repente, começássemos a comer km’s de Castro Verde até Sagres, a distância que separa estas duas localidades, passaria a ser muito mais curta.

Tudo isto afectaria a economia do país e o seu desenvolvimento. Embora tresloucados queremos ficar de consciência tranquila, no fim desta Transbicigótica, não vamos querer que nos apontem o dedo, dizendo, por exemplo: - o país não está a andar para a frente, está a ficar sem recursos, por vossa causa.

 

Acreditamos que esta Transbicigótica está a mexer com a economia do país, no sentido positivo, pois acarreta diariamente enormes despesas, favorecendo o Turismo, a Restauração e as águas de Portugal. Nesse sentido, e em benefício deste bonito país à beira mar, desenhado e ilustrado, decidimos que as etapas são para cumprir uma de cada vez. Os Portugueses podem ficar descansados.

 "É para subir?" - perguntou o Jerónimo. "De cajado na mão, eu subo tudo!"

 

Texto: Jerónimo

Dia 14

 

Vinho no sangue é bom

Seja maduro ou verde

O que interessa é que 14 já estão

Hoje terminamos em Castro Verde

 

Quando tudo indicava que a 14.ª etapa seria igual a todas as outras, com 80km que, sendo bem divididos, seriam com facilidade ultrapassados...

14.ª dia, o dia não.

  • 08:30h – o jipe não pega;

  • 08:45h – o jipe não pega mesmo;

  • 08:50h – o electricista mora mesmo ali, diz uma senhora;

  • 09:10h – ligação directa, o canhão não tinha solução;

  • 09:30h – os 3 amigos abalam de Pias;

  • 10:30h – o rasto do gps leva-nos direitinhos ao rio Guadiana;

  • 10:35h – mas isto não tem Ponte!

  • 10:45h – mesmo assim vamos passar (30 metros de uma margem à outra, corrente muito forte, profundidade? Nunca saberemos)

  • 11:10h – não temos qualquer hipótese temos de regressar para trás, procurar uma ponte e apanhar o trilho mais à frente;

  • 11:30h – os vidros do jipe não fecham, segundo telefonema recebido;

  • 13:45h – voltámos a apanhar o trilho em Cabeça Gorda, andámos para trás 35km. Rolámos no IP8, "fizemos" alcatrão com desníveis consideráveis, rectas sem fim, onde avistávamos muito ao longe o seu topo e lá chegando, havia outra igual e mais outra… Quando ao 14.º dia já não é fácil andar em frente, andar para trás é pouco saudável, quer fisicamente quer psicologicamente.

  • 14:00h – almoçámos na casa de Pasto Mário em Cabeça Gorda. Mecânicos ou electricistas conhece por aqui? Amigos hoje é Sábado nada feito.

 

"Tens a certeza que é aqui que atravessamos o Guadiana?"

  • 15:00h – o vento decidiu, hoje, vir conversar connosco cara a cara, frente a frente. O deserto já tinha sido ultrapassado, só que nunca nos disseram que a seguir ao deserto vem o fim do mundo.

  • 15:50h – 4.ªgarrafa de água de 1.5 L

  • 17:00h – 5.ª garrafa de água e guloseimas

  • 18:00h – 6.ª garrafa de água e comemos aquilo que ainda nos sobra, de quando? Não sabemos

"Por mim atravesso! O Jerónimo é que não sabe nadar, yo!"

  • 18:45h – fugir a sete pés de um Castro Laboreiro enraivecido e com apetite de Bicigodo (ser exausto e trôpego que vive há 14 dias em cima de uma bicicleta).

  • 19:45h – Castro Verde, o conta kms do GPS marca 107 km

  • 20:00h – Nesta terra não há dormidas, está tudo cheio.

  • 20:10h – Montar as bicicletas no jipe bem lá no alto.

  • 20:45h – Almodôvar, e a pior residencial, até ao momento.

  • 21:30h – Ver o que se passa com os fios da ignição. Os vidros fecharam.

  • 22:00h – Jantar aquilo que houver no restaurante ao lado.

  • 23:30h – Lavar a roupa do ciclista e estendê-la algures entre a porta do wc e o guarda-vestidos.

  • 00:15h – Descanso dos Bicigodos (homens que lutam há 14 dias e 15 minutos contra inimigos impossíveis de vencer, o sol e o seu calor, os caminhos e o seu pó, as subidas e as suas inclinações fantásticas, as manadas e as suas vacas loucas, as matilhas e os seus cães esgazeados, as vedações e os seus complicados mecanismos de fecho, as comidas e os seus temperos inimagináveis, as pensões e os quartos de toda a gente).

 

Mas a palavra de ordem continua a ser Sagres!

 

Texto: Jerónimo

 

 

Dia 13

 

Alqueva e as terras do grande lago

A Luz tem uma nova aldeia, sabias?

No Alentejo bebe-se uma mini de um só trago

É outra bebida energética para alcançarmos Pias

 

Um complexo pequeno-almoço é uma das primeiras tarefas do dia. É um serviço árduo, num vaivém constante conforme forem as condições que o hotel nos ofereça. Quanto melhor for o hotel, mais vezes vamos à mesa recheada de coisas boas e voltamos, sentamo-nos, saboreamos e vamos e voltamos com outra carga de coisas ainda mais boas. Quando nos pomos a fazer contas aos km’s que aí vêm, temos de ir novamente à mesa do senhor das coisas boas e, já de mochila atulhada e de estômago afrontado, desistimos, fugindo a toda a pressa para o exterior.

 

Cá fora já temos as nossas bicicletas à nossa espera e travamos um diálogo de amizade que já nos une.

Bicigodo: Bom dia! Então pronta para mais uma jornada?

Bicicleta: Claro, estou como nova apenas preciso de um pouco de óleo na corrente e toca a abalar.

Porquê Agosto? Eis a pergunta que toda a gente nos faz, até a nossa própria bicicleta. Fazer a Transbicigótica em Agosto é só de homens loucos. Mas não, não somos loucos, ou seremos? Hoje, ainda mais do que ontem, sentimos a temperatura elevada de Agosto. O Verão verdadeiramente vivo. Durante os 74km que separavam Monsaraz de Pias, rolámos demasiado tempo em estradas terciárias de alcatrão. Também elas vão cruzando as enormes planícies deste bonito Alentejo, em lugar dos trilhos poeirentos, a que já estávamos habituados. Tudo isto acontece talvez por estarmos junto do Alqueva e, como sabem, todas as terras que circundam esta enorme albufeira foram submersas.

Abro aqui um parênteses para vos falar da aldeia da Luz. A velha aldeia da Luz, com a construção desta gigantesca barragem, foi totalmente submersa, tendo sido previamente destruída. Um pouco ao lado, nasceu a nova aldeia da Luz. Tudo foi reconstruído de raiz. Tudo. Até o cemitério teve de ser trasladado para a nova área. Um dia que passem por estes lados, visitem a nova aldeia e o seu museu (Museu da Luz) e aí compreenderão o que esta gente sofreu em consequência da evolução dos tempo. Têm uma nova aldeia, uma casa nova, mas…

Hoje, por aqui ficamos. Vamos pernoitar e jantar em “pias”. Nós, por cá, preferimos jantar em “pratos”… Mas nada disto interessa quando já estamos em contagem decrescente.

 

Texto: Jerónimo 

 

Dia 12

 

A maior etapa até agora

Rolou-se pausadamente e em paz

Para a chegada não interessou a hora

Estávamos seguros na aldeia fortificada de Monsaraz

Ponte da Ajuda

A maratona, a etapa rainha, a que tu multiplicas 96 x 1000m e se fores lento a fazer a conta, nós seremos mais rápidos a concluir a etapa. A nossa forma física atingiu um estado irreconhecível. Muito antes desta Transbicigótica, sempre que se pensava fazer um maratona, hesitávamos, ponderávamos e se decidíssemos ir, no final, estaríamos completamente fatigados. Seria preciso uma semana para recuperar. Estamos a andar há 12 dias, hoje fizemos 96km e, na realidade, estamos prontos para o dia de amanhã. E não pensem que hoje foi fácil. Como anteriormente já tinha sido referido, o deserto aproximava-se e hoje entramos nele. Dezenas de km’s onde olhávamos para a esquerda e víamos feno, direita mais feno, em frente feno, manadas de vacas sentadas no feno, sobreiros rodeados de feno ou seria palha, palha, feno!!! Eh pá tudo era amarelo, os trilhos rodeavam-nos de pó e mesmo com óculos escuros os nossos olhos tinham de ir semicerrados, tal era a intensidade do ar quente com que nos esbarrávamos a cada momento. Embora tivéssemos o Guadiana no horizonte, de quando em vez, apenas nos refrescava a visão, pois nunca nos conseguimos aproximar dele, o rasto assim não o permitia.

Nova ponte rodoviária, perto da velha travessia.

Como se tudo isto ainda não chegasse, imagina agora: em dias normais quantas vezes abrimos a cancela? 3, 4, 5 no máximo? Depois voltámos a fechá-la, pois parece mal, verdade? Agora vejam isto da seguinte maneira: não sendo estes dias normais, diariamente bebemos no mínimo 5lt de água, o que será igual a abrir a cancela (baixar o calção) o dobro das vezes de um dia normal e agora junta-lhe mais vinte cancelas que foram necessárias serem abertas e fechadas. Cancelas estas que fazem de portas em todas as vedações que encontrámos pelo caminho. Muitas delas em arame farpado. Estes 3 amigos tiveram de juntar as forças para as conseguir fechar, não fosse alguma vaca querer vir connosco. Mas nem tudo foi mau. Estou-me a lembrar por exemplo daquele pomar de maçãs que cobria a planície sem fim, coberto com redes para que o sol as deixasse amadurecer mais lentamente. À hora que passámos, e ainda andámos uma a meia hora dentro deste pomar, os trabalhadores repousavam, deitados no chão, entre cada fila de macieiras. Estavam na sua hora de descanso, a hora alentejana. Bom dia gritámos nós…

O almoço foi servido em Juromenha, junto às ruínas do castelo onde viveu a rainha Menha, segundo diz o povo.

Por fim, a estalagem Monsaraz recebeu-nos de portas abertas.

Amigos nós merecemos.

 

Texto: Jerónimo

 

Dia 11

A mais pequena juntou-se a nós

E de tão pequena que era

Mesmo depois de conquistada, sentimo-nos sós

Tal e qual uma tarde melancólica de Primavera

Com o deserto a surgir aos poucos e o oásis à nossa espera, no hotel S. João de Deus em Elvas, ao décimo primeiro dia, tropeçámos numa pequena. A pequenina, a minúscula, a mais humilde, a "já está", a "era só isto?", a "é já ali", só tinha 35 km. Foi cortado o cordão umbilical entre Campo Maior e Elvas. Depois desta etapa "bebé", a transbicigótica vai crescer tão significativamente, que atingirá o seu estado adulto nos próximos seis dias. Terá uma evolução científica ainda não comprovada, mas tudo indica que, na próxima semana, ficará para a história. Nunca antes um ser "bicigótico" progrediu, em tão pouco tempo, crescendo quer em tamanho quer em longevidade, fazendo traduzir, no terreno, uma repercussão inigualável em quilómetros e em desgaste físico.

Chegada a Elvas

À parte disso, diariamente fazes e desfazes malas, pernoitas em locais até então desconhecidos, abres portas onde não sabes o que te espera do lado de lá. Estranhas a cama onde deverias descansar. Desconheces no meio da noite o local onde estás, onde fica o interruptor para a claridade que te permitirá, sem sobressaltos, atingir o espaço onde desperdiças a quantidade de água consumida durante o dia.

 

A transbicigótica conta com o apoio logístico de duas meninas incansáveis que se desdobram diariamente para que estes três amigos cheguem ao fim de cada dia e tenham à sua espera locais aprazíveis, onde o descanso seja possível, o silêncio se consiga ouvir e onde os almoços e os jantares sejam saboreados pausadamente, num ambiente reciclável, onde nada se desperdiça mas tudo se transforma. Sem elas, tudo seria muito mais difícil e se pensas conseguir um bom resultado no que quer que seja, obrigatoriamente terás que ter uma raiz sólida, que seja uma base segura e tranquila. Essa raiz, nesta aventura, foi conseguida.

Texto: Jerónimo

Dia 10

 

Já a mais de meio desta nossa peregrinação

Deixamos para trás belas paisagens, algum suor

Amizades, sacrifícios, confraternização

Ali ao longe já se avista Campo Maior

 

Com a sobrecarga de mais um algarismo, este dia deu-nos uma expectativa de quase missão cumprida. Superámos o meio desta Transbicigótica e até Sagres, é sempre a descer!!!

 

A meio da manhã, mais um pico levava-nos ao "Coll" da Serra de São Mamede a 800 m de altitude. Era mais uma daquelas inclinações em que uma mochila às costas faz bastante jeito, não fôssemos cair para trás.

 

O calor arranjou por companheiro o vento que, por acaso, ali passava e que facilitou-nos a vida ao tornar mais amena a temperatura corporal. Por vezes, faz com que o nosso termóstato comece a chocalhar quase rebentando…Mas vá lá, todos estes picos compensam-nos, de tal maneira, que quando chegas ao ponto mais alto, toda a paisagem que te envolve reconforta-te, enriquece-te, sentes-te um conquistador de altas montanhas. Ouves o pio das águias alimentando as suas crias, sabe-se lá onde, mas tão nítido que não tens qualquer dúvida que esta espécie em vias de extinção merecia uma sorte melhor. Tem sido uma constante observar-mos águias em voos leves e planos, mesmo por cima de nós. Hoje não as vimos, ouvimo-las.

Com a esperança de um bom almoço, Esperança esperava-nos com uns secretos de porco preto acompanhados por um vinho branco e fresco (bebida energética desta Transbicigótica).

Com o estômago recheado “secretamente”, o impacto entre o interior do restaurante e o exterior deu-nos um estalo tão quente, uma brisa tão seca, que logo ficamos saudosos do pouco tempo que passámos à mesa. Mas sabemos que temos um objectivo a cumprir, lançámo-nos para cima daquela que tem sido a nossa companheira ao longo destes dias. E já lá vão 10. O carinho que temos para com a nossa bicicleta redobra, a cada dia que passa, pois é ela que nos está a ajudar nesta aventura tresloucada. É importante que se mantenha ali, mesmo por baixo de nós, sempre com o guiador apontado a sul, pois também ela já sabe que só aí vai parar. Já lhe demos a certeza de um bom descanso merecido.

Neste dia, começámos a sentir a secura do Alentejo, o aroma de uma brisa desértica, a sombra do sobreiro que não te apetece, porque te escalda, porque preferes rolar para sentires a agradável ilusão de um pouco de vento. Nos próximos dias, é o deserto que nos espera.

 

Texto: Jerónimo  

 

Depois de algumas noites sem acesso à internet, estamos de volta...

Dia 9

Perplexos avistámos bem lá no alto

Uma terra chamada Marvão

Para lá chegarmos tentámos um salto

Impossível, o tombo foi grande, até ao chão

 

Portas de Vila Velha de Ródão

Ó Marvão onde é que estás?

Embora tivesse sido um dia em que os km's a percorrer não fossem muitos (54km), tivemos dois picos, um em Castelo de Vide e outro no Marvão. Ambos acabavam em calçada mandada construir há uns anos atrás pela minha tia ( Romana). Já não bastava o desnível da subida, quanto mais quando acaba em calçada romana. Tivemos um acumulado de subidas de 1838m. O desgaste muscular foi considerável.

Foi já numa esplanada do Marvão que apareceu o nosso amigo Sérgio, de bicicleta, com ele trazia o João. Este jovem de Santo Tirso vive em Portalegre, onde também trabalha. O combinado era pernoitar em casa do João ( amigo do Sérgio ) e segundo eles "bora lá é mesmo ali"... Estás sentado numa esplanada, comeste uns pires de caracóis, bebeste umas cervejas, tinhas concluído o dia, como se costuma dizer o dia estava ganho. Fomos então até casa do João, de bicicleta, só que não sabíamos que do Marvão até à casa do João eram 20km. A noite já estava a cair, quase no chão e a casa do João era tão longe para umas pernas já consideradas relaxadas, que, se não fosse a amizade que logo nos uniu, estas pernas tinham-se recusado, logo de início.

Mas todo o esforço acabou por ser compensado quando entras, não na casa do João, mas sim na quinta de floricultura do João. Uma casa tipicamente alentejana, um tanque de água gélida em que tu mergulhas e dizes " ehh pá, isto estáááá´geladooooo!!!". Sentes-te em casa, o João é daqueles amigos que, às primeiras palavras, tens a certeza que está ali um amigo para toda a vida. O Bismark é o cão do João, também ele nos recebeu de pata no ar, como se nos quisesse dizer bem vindos amigos. Pelo contrário, o gato Alfredo, de unhas bem afiadas, questionou-se: "Mas o que é isto? Miauuu".

O jantar prolongou-se pela noite dentro, acompanhado por uma conversa acesa sobre uma vida bem vivida. Como dizia o João "esta é a pior parte da nossa vida, agora imagina a melhor" Obrigado João, obrigado Sérgio.

Aventuras no mundo vertical

Texto: Jerónimo

Dia 8

 

 

Rodei, rodopiei, rasguei.

Raramente rocei o chão

Rolando num rodopio acertei

Às portas da Vila Velha de Ródão

 

Mas antes de lá assentar

por um canal de água seguimos

A Ladoeiro fomo-nos mostrar

Mas lá ninguém vimos

 

Com o objectivo definido: o sul

Estávamos no Tejo Internacional

Lentiscais e o rio Ponsul

Já fazem parte deste Parque Natural

 

Ainda há surpresas boas nesta vida

Á nossa espera e de prato cheio

Estava a nossa querida aldeia Alfrívida

Com uma boa massa e pão de centeio

 

Abalámos com a bênção de Nossa Senhora dos remédios

Acompanhando lentamente a digestão

Longe da civilização, longe dos prédios

Num alto do cabeço surge um enorme cão

 

O Hélder, que vinha quase a dormir

Assustou-se com a enorme fera

De um só esticão teve de fugir

Senão ficava sem a coxa, ah pois era!

 

Fugiu, fugiu e foi-se logo esbarrar

Contra a torre da igreja de Monte Fidalgo

O relógio da torre, de marca Jerónimo, 15:45 estava a marcar

Estremeceu e reparou que se passava algo

 

 Relógio da marca Jerónimo Pela primeira vez, o Tejo

A torre então exclamou

Ah! São vocês, estou a reconhecer o meu primo

É pena, mas aqui a fonte de água está seca, adiantou

Mas encontrai-la em Perais, ali ao cimo

 

Reabastecidos pela quarta vez

O preço da água estava para todo o feitio

A dois e meio, a um euro, a sessenta cêntimos e a um euro outra vez

 Desde Vitalis, Serra da Estrela, passando pela Fastio

 

Ainda antes de lá chegar

Javalis conseguimos ouvir

Eram p'ra aí muitos, ou mais, a caminhar

Pelo som parecia que iam a discutir

 

Decidiam quem haviam de atacar

O de barbas ou o magriço

Bem, vamos é sair daqui estou a estranhar

Estes porcos ainda fazem de nós um bom chouriço

GRUPO DOS AMIGOS DE FOZ DO COBRÃO

A casa da D. Ermelinda seria o nosso dormitório

Lá para os lados da Foz do Cobrão

Nesta aldeia de xisto teríamos como reportório

O nosso melhor jantar com um maravilhoso feijão

 

Agradecemos desde já à D. Ermelinda a hospitalidade

A simpatia, o à vontade

A sua graciosidade, a sua vitalidade

Ganhámos aqui uma nova amizade

 Texto: Jerónimo

 

Dia 7

 

 

Sábado, acordamos e não sabíamos o que fazer

Decidimos ir andar de bicicleta,

Ir a Monsanto, seguir pela Idanha-a-Velha teve de ser

Ladoeiro era a nossa meta

 

Ressacados ainda do dia anterior, a partida foi lenta. Voltámos a ter o rio Erge por companheiro, agora com o leito um pouco mais cheio. Num voo também lento, uma garça real assustou-se com a nossa presença, desaparecendo no horizonte.

Mais a frente duas vacas reais bebiam água, não muito longe de um rebanho de ovelhas também elas reais, pois realmente estavam lá. Nós vimos.

A aldeia mais portuguesa de Portugal, Monsanto, enriquecida pelas Marrafonas e os seus adufes, aguardava-nos bem lá no alto. Com uma pedalada certa, absorvemos Monsanto, num instantinho, pois seria lá o nosso almoço. A prova de downtown, a contar para o  campeonato nacional, também lá estava e tudo foi suspenso por alguns minutos, quando souberam da nossa chegada. Aplausos, incentivos e saudações todos ajudaram a nossa chegada. Imaginem a volta a Portugal a chegar à Senhora da Graça, tal e qual…!!!

Agradecemos com a nossa presença na zona de prova. Organização e atletas sentiram-se orgulhosos e, numa breve demonstração nossa de como se escala de bicicleta, saímos de Monsanto perto das 16:00. Faltava-nos ainda mais ou menos trinta quilómetros dos setenta e três totais, mas a nossa preocupação não era chegar ao fim rapidamente. O calor continuava a ser o nosso companheiro de viagem e, pouco depois, a barragem Marechal Carmona fez com que o mergulho fosse inevitável. Do outro lado da margem, uma festa "transe" fazia-se ouvir com os decibéis ao rubro. Vá a gente compreender esta gente. Cada tolo com a sua mania.

 

As bicicletas começam a mostrar que também elas não morrem mas moem, gritam, chiam, emitam sinais estranhos, sujam-se, mantêm-se irrequietas, difíceis de controlar quer a subir, quer a descer. Hoje, foi necessário chamar-lhes à atenção e dizer-lhes que tivessem juízo, muito juízo. Mesmo assim, duas delas decidiram furar da parte da tarde, talvez em sinal de protesto. Por agora, o total de furos são apenas 4 em sete dias sem descanso, nada mal. Plantado no meio do nada, a oito quilómetros de Idanha-a-Nova, o hotel Idanhacaça foi o nosso ninho para pernoitar. Merecíamos um espaço destes. Conforto e serenidade abraçaram este três amigos pela noite dentro.

 

 

Texto: Jerónimo

Dia 6

 

Alinhabados e de calção enxutinho

Arrancámos para a sexta etapa

O ponto final seria as Termas de Monfortinho

Mas primeiro estava a serra da Malcata

 

Com uma realidade bem diferente da do dia anterior, este seria o dia mais longo, quer em quilómetros quer em tempo a pedalar. Abrimos caminho através de uma área de carvalhos que nos ensombraram nos primeiros quilómetros. Mais à frente, a Serra do Homem de Pedra aguardava-nos bem lá no alto, a uma altitude de 1100 m. O Homem de Pedra reconheceu-nos de imediato, afinal éramos os bicigodos. O nosso grau de parentesco seria de compadres ou afilhados. Duas de pedra e com um abraço bem duro, despedimo-nos em direcção a Fóios, o primeiro e último ponto de abastecimento de água.

 

Só voltaríamos a ter água no fim, ou seja, daí a 70 km. A reserva natural da Serra da Malcata, um dos habitats do lince ibérico, foi com certeza o ponto mais duro desta nossa transbicigótica, até ao momento. Encosta abaixo, encosta acima, durante 40 km sentimos o isolamento acompanhados pelo som do silêncio e pela beleza natural de uma reserva onde o lince nunca foi, por nós, avistado. Em vez dele, surge-nos, no meio do nada, um ciclista espanhol - de Madrid - de bússola em punho, mas completamente perdido, ao contrário de nós. Tentámos orientá-lo, mas mesmo ele não sabia de onde vinha e para onde ia. Acompanhou-nos durante algum tempo e depois decidiu retomar um trilho que pensava conhecer. Adeus e boa sorte amigo! Com a etapa mais longa, sem almoço, com água a conta gotas e um sol a querer-nos derreter devagarinho, o trilho levava-nos agora a uma reserva privada de veados da Monfortur. Como era de supor, toda ela estava vedada e com portões fechados a cadeados.

 

No dia anterior tínhamos avisado a Monfortur que por ali passaríamos e perguntámos se era possível abrir aquele portão por onde passava a Transbicigótica. Como resposta obtivemos um sim, os guardas da reserva estariam ai à hora combinada. Antes da hora chegamos nós, duas horas e meia depois da hora combinada chega o guarda. Um mal entendido entre quem pensa mandar e quem manda de verdade fez-nos desesperar durante 180 minutos à sombra de um pinheiro. Faltavam ainda 25km até Monfortinho. Ao longo do rio Erge, completamente seco, rolámos a maior parte do tempo que nos faltava e já foi perto das 18:30h que chegámos ao hotel. Chegámos fatigados e secos de sede, resultado de mais um dia desta Transbicigótica que começa a mostrar o seu poder. Um bom descanso e um melhor jantar fará com que amanhã, às primeiras horas do dia, estejamos prontos para a loucura de mais uma aventura.  

A reserva dos veados O leito do ErjesTexto: Jerónimo

 

 

Dia 5

Sem avarias nem alicates

Com naturalidade apoderamo-nos da travessia de Portugal

Hoje espera-nos Alfaiates

Para nos remendar algum músculo que se sinta mais mal

Imaginem uma aldeia onde só existem alfaiates. Cada casa é uma alfaiataria, os seus habitantes são alfaiates e estão casados com modestas costureiras bem aprumadinhas e alinhavadas, como mandam as regras da moda. Os alfacosturícos são as “crianças” desta aldeia que, durante o dia, brincam com carrinhos de linha de várias cores, pelas ruas vigiadas por tesouras enormes que controlam todos os pontos corridos que excedam a velocidade permitida. Quando isto acontece, rápidas máquinas de costura intervêm auxiliadas pelas tesouras enormes e esse ponto corrido é imediatamente cortado, ficando depois pendente numa linha de costura qualquer.

Imaginem agora, que sempre que um casal sai à rua ele obrigatoriamente terá de usar fato novo e ela vestido a estrear, onde o perfeccionismo é posto à prova por tesouras mais pequenas que supervisionam qualquer costura menos evidente e, num abrir e fechar de tesouras, estas roupas são destruídas e queimadas no poço dos tecidos imperfeitos.

Quem tem a sorte de sair à rua e por aí se manter de roupa nova, tem o privilégio de, durante todo o passeio, ouvir Kusturica, a música de eleição de alfaiate que se preze. Sabendo a história desta bela aldeia, estes 3 amigos lançaram-se pelos caminhos do Vale da Mula a uma velocidade média de 18 km horários, não fosse aparecer uma tesoura enorme que nos cortasse algum músculo necessário ao desempenho funcional de um ciclista de longa distância.

 Sem imprevistos consumimos os 53 km tão rapidamente que surpreendemos as tesouras e as máquinas de costura, num momento de pausa antes do almoço. Acordámos estendidos numa relva húmida nas traseiras da casa Pelicano. O sonho tinha sido agradável. Ah! Uma piscina! Desculpem, mas voltámos já.

 

 

 

 

Texto: Jerónimo

Dia 4

À SOMBRA DOS ABUTRES

Oito horas da manhã, abre-se a porta e “Freixo”, de espada à cinta, já estava cá fora. Foi preciso convencê-lo de que afinal sempre íamos ao Penedo Durão deixar recado a um ou a outro Abutre, ou mesmo a uma Águia Real que por ali avistássemos, dizendo-lhes que, se lhes apetecesse, poderiam elas também ir visitar o Freixo, porque os céus estavam abertos. Então subimos, subimos, subimos. E quando já estávamos a pedir ajuda a uma Águia Real, avistámos o Penedo Durão.

 

 

 

O recado foi dado em voz alta, mas os abutres e as águias não nos ligaram nenhuma. Aplainavam silenciosamente sobre o miradouro, com o rio Douro lá ao fundo. Num bater de asas descemos vertiginosamente até Barca d'Alva, abordando, num rasgo lento, uma escarpa em xisto que nos levou a uma ponte medieval onde existia um laranjal sem laranjas.

Barca d’Alva foi a última civilização da região transmontana que nos surgiu e, depois de reabastecidos, a Beira Alta brindou-nos com uma subida contínua de mais ou menos 25 km que, desde logo, agradecemos. Neste brinde, estava incluída ainda uma zona árida de trilhos arenosos sem uma qualquer sombra, onde formigas famintas arrecadavam todas as migalhas da nossa última “assandes” ressequida de dois dias e enclausurada num “Camelbak” demasiado quente.

O desnível desta primeira aparição da senhora da beira alta fez com que estes 3 amigos se refugiassem na primeira capela de Figueira de Castelo Rodrigo de nome a Cerca. De joelhos, quase de rastos, adoraram religiosamente a coxa de frango com arroz de feijão que tinha caído dos céus. Concluídas as últimas preces, foi-nos dito que em Castelo Rodrigo davam abrigo a gentes que tomavam rumo ao sul. Mais uma vez, escalámos ao longo de uma subida íngreme com o sol torrado que se fazia sentir. Lá chegados, fomos deparados com um cenário de construção e recuperação, em que os dormitórios não escapavam a todo esse reboliço. Viemos a saber que tudo aquilo era culpa do povo de Vale de Mestres que, de quando em vez, ali aparece e destrói tudo. Num ápice, descemos de Castelo Rodrigo e conquistámos o Vale. O pastor Mário, com um rebanho de 170 ovelhas e 4 cães, veio ao nosso encontro e, em nome do povo de Vale de Mestres, pediu mil desculpas pela falta de uma recepção apoteótica, pois não sabia que os Bicigodos ali passariam. Em sintonia com o Povo, e como recompensa, já nos tinha reservado quartos na adega Muralha em Almeida, onde poderíamos beber toda a ginja que quiséssemos na tasca da prima.

Agradecemos-lhe e pedimos que avisasse todo o povo do sul que os Bicigodos vão a caminho.

Texto: Jerónimo   

 

Dia 3

Prontos para lutar com “Freixo”

De Sendim abalamos com a força de 30

Cuidadosos para não quebrar nenhum eixo

Chegámos mais cedo, o homem ainda não tinha a “espada à cinta”

 

Partimos de Sendim num dia sim, pois teria de ser assim. Pensámos que hoje é o primeiro dia de uma longa jornada sem fim, onde os quilómetros acumulados aumentam drasticamente, a cada curva, a cada monte, a cada descida, a cada pedalada.

As etapas pequenas acabaram. A Partir de agora a nossa resistência será posta à prova a cada dia que passe.

Estes 3 amigos estão mais unidos do que nunca e o espírito esta tão elevado e positivo que não será um qualquer obstáculo que os pare.

Pela primeira vez, o Douro

Foi no Parque Natural do Douro Internacional que deslizámos ao longo do dia paralelamente ao rio Douro durante muitos quilómetros e foi já em Mazouco que o avistámos pela primeira vez na sua imponente plenitude e leveza.

O almoço foi saboreado numa aldeia de nome Lagoaça, no restaurante rural estacionado na antiga estação de caminho de ferro agora abandonada. Foi recuperada pela junta de freguesia e hoje é a família do Zé (o miúdo redondinho) que explora o espaço. E lá vamos nós mais uma vez, agora recheados com umas maçãzitas “colhidas” pelas nossas meninas numa berma algures entre uma terra e outra. Mais uma vez daí saíram deslumbradas pela beleza natural destas terras encostadas a um canto de Portugal por onde já ninguém passa. Zás Trás rola e pedala sem parar e mais 70 km estavam conseguidos, Freixo de Espada à Cinta surge-nos repentinamente por trás de um cabeço. Gloriosamente entrámos em Freixo e sem perder tempo procurámos o Douro via Congida, onde os nossos corpos poeirentos e cansados mergulharam calmamente. Foi nesta tranquilidade que acabámos mais um dia agradável na terra do Freixo, já de espada à cinta.

 

Texto: Jerónimo

Dia 2

De Vimioso a Sendim

Penso que ninguém se perdeu

A distância era pouca, mais ou menos, assim assim

Nada custou, OLARILOLÉU

 

Sabendo da nossa transbicigótica, o rei Bezito enviou imediatamente o seu mandatário Napoleão. Além da inspecção aos nossos cavalos, Napoleão vinha averiguar o que estes três cavaleiros da bicicleta armada, faziam nas terras do Rei.

 

Depois de ter comprovado o tamanho das ferraduras, o peso, se era equivalente ao do montador, e se não mostravam sinais de maus tratos, Napoleão logo nos questionou qual era o objectivo desta nossa transbicigótica.

 

 

 

 

 

 

Contámos então as nossas humildes histórias dizendo que éramos três pobres montanheses que ao longo da vida amealharam alguns cobres para poderem fazer esta travessia, conhecendo as terras de um bom rei, que eles tanto adoravam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era apenas um sonho de três amigos que agora se concretizava e pediam humildemente a Napoleão que os deixassem prosseguir viagem.

 

 

Napoleão compreendeu que eram bons homens e convidou-os a passar o resto do dia na sua casa rural de nome La Tenerie.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

La Tenerie

 

Foram prendados com o melhor almoço que até então tinham comido, desfrutando de um enorme tanque. Insistiu ainda para que pernoitassem e seguissem viagem só no dia seguinte, pois seria muito desgastante.

 

 

 

"L Burro i l Gueiteiro"

 

 

Ainda assim foi-nos oferecida uma festa no castelo de Miranda do Douro, onde gaiteiros e burros fizeram com que daí saíssemos rejubilados. Viva o Rei Bezito!

 

 

Texto: Jerónimo

Dia 1

A ansiedade transformou-se em vontade e esperança.

A cada um estendemos um abraço caloroso

Deixamos para trás as terras de Bragança

O primeiro dia deixou-nos em Vimioso.

 

Partimos ontem porque a hora tinha chegado e a hora é para todos. E todos lá estavam à hora combinada. Éramos cinco, tínhamos um jipe, três bicicletas e cinquenta malas e... É verdade, tudo arrancou, nada ficou. O primeiro susto surgiu logo aos primeiros quilómetros, em plena A27, numa subida sem fim, a temperatura do jipe estabilizou no máximo. Cheiro a queimado, pó no radiador, água a ferver, triângulo no fundo das cinquenta malas, capot levantado. A viagem tinha terminado. No meio das cinquenta malas teria que haver um regador, um frigorífico com água fresca e, por incrível que pareça, tudo lá estava. Regámos, esperámos, voltámos a regar e o jipe voltou a florescer... A viagem voltava a ganhar vida e, num instante, já estávamos sentados num restaurante, em Vila Pouca de Aguiar. Almoçámos e só a barragem do Azibo e as suas belas praias fluviais nos fizeram novamente parar. O que depois aconteceu, por acaso não interessa (jantámos demasiado bem, dormimos bucolicamente cansados e acordámos energicamente prontos a fazer a primeira transbicigótica de Portugal).

 

 

 

 

À primeira hora da manhã, lá estávamos nós. Nós, menos o Ricardo. Mas o que é que isso interessa? Nada... Fotografia tirada, a grande aventura começava ali, naquele instante. Tínhamos a sensação que na primeira pedalada tudo nos iria partir, cair ao chão. Foi uma sensação nova, mas, mesmo assim, abalámos. Deixámos para trás, pela primeira vez, as nossas meninas que ainda dormitavam logisticamente nos seus confortáveis quartos. Mais tarde, voltaríamos a encontrarmo-nos, achávamos nós. Foi com o aroma da esteva (planta agreste que se dá nas terras pobres) que precisamente ao quilómetro 12 o Hélder perfurou ligeiramente o pneu de trás, acabando por o esvaziar. Alto! Furo! Furo? É... furo. Ó Ricardo, furo... Furo? É... furo.

 

 

 

 

 

Apenas mais um furo voltaria a atacar, já da parte da tarde. Apanhando-nos distraidamente numa descida, na mesma em que a vítima dos dois furos acabou por sucumbir durante alguns instantes sabe-se lá, derrubada por outro furo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda da parte da manhã, as nossas meninas, já saudosas dos aventureiros, surpreenderam-nos em Quintanilha refasteladas num prado verde, junto ao rio Maçãs. Simpaticamente já nos tinham reservado o almoço no restaurante Freixo, onde apreciámos a famosa posta, que nos apareceu "botada" num prato prontinha a "deborar". Ainda aqui, as nossas meninas acabaram também por ser surpreendidas, no café STOP, pela simpatia do dono que graciosamente as levou a passear nos seus terrenos. Foi então que Brígida exclamou: "Ah! São cerejas!". E num abrir e fechar de olhos, já estavam carregadas de sacos com cerejas e maravilhosas ameixas.

 

 

 

 

 

 

Com o almoço pausadamente relaxado e demorado, voltámos a partir para a segunda metade de uma etapa que se tornou dolorosamente deliciosa pela imensidão de paisagens agrestes que mornamente foram ultrapassadas, com sacrifício, mas nada que um verdadeiro bicigodo não consiga transpor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando, pela terceira vez, abordámos o rio Maçãs, este chamou-nos e sorrateiramente puxou-nos para o seu leito, fazendo com que nos mantivéssemos aprisionados aí algum tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bicicleta amarela do Sr. Alfredo João

Largadas as amarras de uma prisão refrescante, o nosso caminho erguia-se agora até Pinelo, a última aldeia antes de Vimioso. No largo do tanque velho jorrava uma pequena fonte com água não muito fresca e o senhor Alfredo João, apercebendo-se da nossa fadiga e sede, ofereceu-nos um pouco de vinho que trazia num mini garrafão bem agasalhado num saco de plástico, mas sem antes nos mostrar a sua bicicleta amarela guardada religiosamente junto ao seu tractor. "Vocês têm subsídios pr`andar aí p'ra trás e p'ra diante?" Não, não temos. "Ai têm, têm!" Sabem tenho 76 anos e ainda ando de bicicleta, ainda andaria mais se não fosse a minha espinha ofendida."

Chegados a Vimioso, aguardavam-nos uns amigos que se encontravam no festival "Sons e Ruralidades". Conversados abalámos para o nosso último refúgio do dia, o Hotel Rural Sr.ª das Pereiras, onde a simpatia de quem lá morava foi o suficiente para nos restabelecer de energia e para sobremesa tivemos uma massinha de frango muito boa.

Texto: Jerónimo

Prefácio

Faltam apenas alguns dias para a confirmação de que o dia chegou. Já muito se terá dito sobre a travessia do Portugal e, de facto, algo mais será escrito ao longo destes dias de aventuras, travessuras, talvez algumas arranhaduras e de certeza umas saudáveis loucuras. Estes três amigos tresloucados irão transcrever transparentemente tudo, ou quase tudo.

Rolaremos ao sabor das energias renováveis, ora a energia solar nas grandes planícies, ora a energia eólica nas grandes montanhas, ora a energia hídrica nos grandes rios. Durante os próximos dias irá haver falta de energia nos vossos lares, nos vossos veículos, etc. O oxigénio também irá ser raro portanto, um conselho que vos dou: - mantenham-se em casa sossegados sem grandes esforços, apenas visualizando o sítio dos bicigodos. Todas as energias serão encaminhadas para estes três elementos da Natureza, que em comunhão com a mesma, farão com que esta travessia mergulhe na vossa e na nossa humilde memória, por muitos anos. Um dia mais tarde, quando sentados na poltrona, tentando contar uma bela história aos vossos netos uma delas começará assim: - um dia, três amigos tresloucados e demasiado franzinos… Mesmo assim, e temendo alguma falha de energia lá para os lados do nosso destino, todo o vosso apoio será indispensável e agradecemos, desde já, que se manifestem de alguma maneira, vocês serão uma outra energia: - a energia amiga. Obrigado e bem-hajam.

Jerónimo

Início    Era uma vez    Comentários     Elementos Grupo     Fotos     Crónicas     GPS     Ligações